terça-feira, novembro 08, 2005

Metadiálogos de Boliqueime (VII)

Visto que já estamos em plena campanha abrimos este espaço aos inspirados diálogos do Great Portuguese Disaster 85-95 que muito estão a contribuir para a formação cívica dos jovens:

"-- Ó, avô, o que é que quer dizer "racaille"?...
-- Onde é que tu ouviste isso, meu amor?...
-- Foi na televisão...: dizem que a racaille está a conquistar Paris...
-- Querido, não se pode acreditar em tudo o que passa na televisão... Porque é que não fazes como o vovô, que não lê jornais, nem vê televisão?...
-- ... excepto a "Primeira Companhia!!!..."
-- (risos) Sim, claro, excepto a "Primeira Companhia". Portugal, OPPS, deitar, OOPs, em frente, OOPS, marchar, OOPS, ao fundo!...
-- Bilu bilu bilu bilu!...
-- ... querido, então o vovô vai explicar... Racaille são aquelas pessoas que vivem numa economia medíocre, que não querem trabalhar, que não vão à escola.... que não votam no avô, e que só saem à rua para fazer mal aos outros.
-- Ó, vô, e no tempo do avô, havia racaille?...
-- Claro que não, querido, no tempo do avô... (silêncio)... Olha, filho, uma coisa... em português, nós não dizemos "racaille", dizemos "pretos", "monhés" e "camones de leste"... No tempo do avô, vinham muitos pretos, para construirem muitas casas, muitas estradas e muitos condomínios de luxo...
-- E construíam essas coisas para eles?...
-- Não, construíam para os amigos do avô e da avó. Lembras-te daquele senhor que esteve cá ontem, o Professor Cadilhe?... O Professor Cadilhe foi dos primeiros a comprar uma casa nas Amoreiras, feita pelos pretos!... E é amigo do avô e da avó!...
-- E por que é que os pretos não moravam nas Amoreiras?...
-- Os pretos não moravam nas Amoreiras porque aquelas casas não são para pretos!...
-- Então, moram onde?...
-- No tempo do avô, moravam na Pedreira dos Húngaros, e na Cova da Moura, e no Bairro do Fim do Mundo, e no Bairro das Marianas, e no Casal Ventoso, e no Bairro da Boavista, e...
-- Em condomínios de luxo, avô?...
-- Claro que não, querido, em condomínios de preto...
-- E por que é que eles vinham para Portugal para morar em condomínios de pretos?
-- Porque os amigos do avô, dos bancos e da construção civil iam à terra deles dizer que nós precisávamos de pretos para trabalharem em Portugal, e que eles deviam vir, para ganharem mais qualquer coisinha do que na terra deles.
-- E ganhavam mais qualquer coisinha?...
-- Umas vezes sim, outras vezes... não. Geralmente... não. Os pretos são muito preguiçosos, e às vezes chegava ao fim da semana, e as pessoas que são amigas do avô olhavam para eles, e diziam "tu não trabalhaste nada esta semana, escarumba, esta semana podes já começar já a ir pôr a manta à janela, que daqui recebes népia!..."
-- E o que é que eles faziam?...
-- Faziam o que os pretos fazem todos, metiam-se no álcool, na droga, na prostituição, e começavam a roubar as pessoas que votam no avô...
-- Ó, avô, e o avô quer ser eleito para acabar com os pretos?...
-- Querido, se, como espero, for eleito, em Janeiro, Presidente da República, o avô vai obrigar os pretos a estarem sempre na casa deles, na Cova da Moura, no Bairro 2 de Maio, na Boavista, no Pica-Pau Amarelo...
-- Ó, avô, e o avô acha que assim acaba com os pretos?...
-- (suspiro) Querido, os pretos são como os funcionários públicos, não acabam nunca, o melhor que nos pode acontecer é que vão morrendo todos...(Cai o pano)
posted by Arrebenta : Segunda-feira, Novembro 07, 2005

4 comentários:

An Jo disse...

Gostava de saber qual o seu conceito de emigrante ilegal?
É interessante ver manifestações de emigrantes ilegais. Gosto. É uma tara que tenho. Admiro a cara de pau que certas pessoas têm por cometerem crimes e depois andaram na rua a manifestaram-se por terem cometido certo crime.
Ainda não percebi porque é que os violadores, assassinos, pedófilos, ladrões, etc, não fazem o mesmo. Poderiam organizar manifestações para legalizarem a violaçao, o assassinato, a pedofilia, o roubo, etc.
Vou-me sentar e pensar sobre o assunto.

MF disse...

Ora deixe cá ver se lhe explico:
Um emigrante ilegal é assim como um português sem trabalho que tenha dado o salto para a França.
Um libanês, ou turco, ou algarvio que tenha conseguido ir apanhar melões,ou morrer na construção dos viadutos em Espanha...
Mas chegados lá, aos destinos, quaisquer que sejam, passam a chamar-se imigrantes e não emigrantes. Daí a sua dúvida.
Podia ter ido ao dicionário e poupava-se tempo.Quanto à legalidade isso é outra história.
Depende das profissões. E da concorrência. As mães de Mirandela, por exemplo, acham que as outras são ilegais. Os maridos delas, os paizinhos, acham-nas legais.
Percebeu agora?
Isto com exemplos na família mais chegada torna-se mais fácil.

flor disse...

Agora é que isto está tudo "trocado". Vamos lá a ver se "a gente" se organiza...

Os Metadiálogos de boliqueime VII ( ainda há o VI, o V, o IV etc...)colocados no Homem-ao-mar, falavam de emigrantes ilegais? Nem de imigrantes! Falavam de manifestações de emigrantes? Nada disso. O que ali se pode ler e também em muitos textos publicados por MF no seu Homem-ao-mar! é que os desgraçados que saiem dos seus países em busca de melhores condições de vida, encontram na maior parte das vezes situações muito piores. Duvidamos?! Podemos preguntar-nos: Onde dormem?! onde habitam?! Quanto ganham?! O que comem?! Qual o seu nível de escolaridade?! Onde deixam os seus filhos quando vão trabalhar?! Quando deixam de estudar os seus filhos?!

O que está a acontecer em França não são manifestações ilegais. Nem legais! O que está a acontecer é que os mais desfavorecidos da sociedade, aqueles que romperam todos os laços e cortaram com todas as instituições entraram em guerra. Nós, que somos observadores (ainda) constatamos muito rápidamente que o sistema falhou, ruiu!

MF disse...

Flor,
Eu não diria nem menos, nem melhor!
Abraço