sábado, outubro 29, 2005

Descarrilados

Quando iniciei isto estava convencido, que havia de conhecer outros companheiros de viagem, com o mesmo destino.
Também aconteceu. Entraram, sentaram-se e ficaram a ver a paisagem. Não são muito faladores mas também não perturbam quem teve a iniciativa de escolher a carruagem...
Outros houve que aqui se meteram, certamente por engano, e cujo comportamento não é bem o do viajante normal:
É o que tem acontecido com um pequeno grupo. Assim para o rufião, e para o desbragado.
Que, na maioria das estações, nada dizem: Já passámos por algumas paragens e apeadeiros com muito interesse turístico, social, paisagístico e histórico:
Mas, nem uma palavra lhes ouvi sobre o que lhes mostrei, provavelmente porque nada pensam acerca ,
- da situação da Justiça,
- da Educação,
- dos magistrados,
- dos professores que ensinam e dos que fazem greve,
- dos polícias em greve,
- dos militares em manifs,
- da situação em África,
Até lhes apontei pontos de referência como
- As eleições autárquicas
- A próxima eleição presidencial
- O racismo nos EUA
- O # de mortos americanos no iraque
- Os apoiantes do Cavaco
- O branqueamento de capitais e as fraudes bancárias ( ou banqueiras?, já não sei!)
- A nova agência de espiões dirigida pelo José
- O CDS-PP e o Circo
- A utilização da fome como arma no Iraque
- Os abusos sobre os presos de guerra e os novos campos de concentração e de tortura
- A investigação espacial europeia
- A justificação divina da política militarista de Bush
- A Refer e a sua Administração
- A fúria construtiva de rotundas, em Portugal
- O programa de reformas do PS
- A época dos incêndios
- A liberdade de voto
- Hugo Chavez e o anti-imperialismo
- A morte de excluidos em Cascais, numa barraca
- A exclusão social nos EUA
E olha que sobre isto tudo não lhes arranquei uma palavrinha.
Nada.
Julgo até que olharam para o lado e assobiaram o "My way". Nem uma foto fizeram. Máquinas em baixo, dedos moles!
Mas tenho de confessar que há uns quantos assuntos, perdão, paragens, que os transtornam. Que os tiram do sério. Passam ao estado da maior bestialidade. Uivam. Os olhos saltam-lhes dos facies. Arrancam os cabelos às punhadas. Acredito que têm visões e que cheiram a enxofre. Aparecem-lhes chagas nos corpos. Os cabelos viram cerdas de porco. Crescem-lhes cascos onde há pouco tinham os Nikes. Babam-se. O ranho é verde e grosso. Falam entre eles em línguas esquisitas. Dizem obscenidades. Sacam das latas de tinta e picham tudo em redor. Colam cartazes com desenhos porcos. Agitam chocalhos e rilham os cornos. A viagem estremece e as luzes vão-se a baixo. Roncam!
Os pobres não aguentam ver ou ouvir falar de Che Guevara, de Fidel Castro, da R.P. da China ou da Coreia do Norte. Têm espasmos e vómitos de bilis, se vêem uma previsão metereológica de um furacão no Golfo do México. São alérgicos! Até colocam vendas e palas, à sua aproximação. Recusam o contacto mesmo visual. Ficam convulsos.
Nem quero nem pensar no que nos espera quando chegarmos a Simão Bolivar e ao Granma! A Samora Machel e ao irão! Receio pela sua saúde mental!
E não sei que faça. Se os deixe ficar no próximo apeadeiro e nós retomamos a viagem!? Ou se lhes recomende umas sacas nas cabeças, estilo Ahbu Grahib e uns coletes de forças com uns atilhos nas costas? Que me dizem?
Confesso que preferia tê-los deixado em terra! Descarrilados!
Publicado por Manuel Ferrer

4 comentários:

saf disse...

"Alguns, poucos, caíram sozinhos" (esperemos)

vdf disse...

A caravana vai passando.
"Uivemos, disse o cão."
Mas, estes, não uivam, não ladram sequer. Como cabiris, rafeiros, vira-latas que são, limitam-se a ganir, guinchar, gemer, chiar.

Flor disse...

Incrível MF! O seu texto, fez-me relembrar um filme arrepiante. Em Dog ville o público assiste arrepiado à frieza, crua e bruta da maldade humana.
Foi assim que olhei para estes seus passageiros de viagem. Assistem mudos ao que se passa em seu redor, ladram apenas quando o medo se lhes entranha nos ossos. O Medo de saber que ainda há alguém que resiste e que diz não.


Ainda somos muitos, diospostos a prosseguir viagem.

Um abraço,

Geosapiens disse...

...uma comparação sui generis...acho que não diria melhor...mudaria os protagonistas do fim...naquela parte de "Ospobres não aguentam ver ou houveir falar(...)"...mas de resto subscrevo...um abraço...